De repente
olho pro céu e vejo a lua sorridente. ‘’Parece mágica, parece mágica’’, “É o
sorriso de Deus”, dizia quando tinha 4 anos. Era engraçado, eu não entendia
como o mundo funcionava, fico imaginando se, por algum instante, eu pudesse
viver em um mundo em que tudo é mágica. Nascer há alguns milênios e acreditar
em vários Deuses, faria da vida uma fantasia.
Fica sem
graça, perde a beleza quando descaramos os segredos da natureza. Tudo tem uma
explicação feia e complexa que tira a beleza de acreditar num mundo místico.
Quando descobri que a Lua não era o sorriso de Deus fiquei profundamente
desiludida, imagina a poesia sem uma metáfora? Não é poesia.
Outro dia um
senhor veio até mim e perguntou se eu já tinha deixado de acreditar em Deus. Eu
disse que não tinha certeza. É muita prepotência dizer que não acredito,
portanto falei que não sabia, o que é verdade. Ele me olhou, sorriu e falou que
eu provavelmente estava no caminho certo e que logo mais acharia a resposta.
Não me contive e perguntei se ele acreditava em um ser divino e o sujeito me
respondeu rindo de si mesmo, com uma feição de inocência:
Achei engraçada a estória, fiquei curiosa com o velhinho. Interroguei-o novamente. “O que fez o senhor mudar de ideia e deixar de crer em Deus?” Novamente rindo de si mesmo ele rebate:
“Ah, eu fui me meter em fazer física. Só durante a faculdade já descartei várias crenças que havia em minha cabeça. Cheguei a trabalhar em Angra dos Reis no início da década de 70, eu era físico nuclear. Fiz amizades lá, conheci o “Mick”, um Inglês maluco amigo dos Mutantes que tomava ácido todo dia, até antes de ir para o trabalho. Era divertido, ele falava em Deus, que conversava com ele, que o via, que nós éramos seres divinos etc. Eu ficava brincando, falando que iria morrer e apertar a mão de Deus. Foi nesse momento da minha vida que comecei a me perguntar, de forma mais séria, coisas sobre a vida, sobre Deus. Comecei a descrer e descrer. Não foi de um dia para o outro, foi uma transição. É estranho dizer, minha querida, mas sei que não crer mais em Deus deixa a vida mais careta.”
“Infelizmente, não.
As coisas que vivi me fizeram deixar de acreditar e acabar com parte da minha
infância e adolescência. Fico pensando se eu pudesse retornar e recuperar o
tempo perdido nas missas. Certamente eu não teria o sentimento de tempo
perdido. Quem sabe? Eu poderia ter utilizado esse tempo para aprender um
instrumento. Agora, com a minha velhice, fico querendo voltar ao passado. Ou
até mesmo voltar a acreditar em Deus. Aí eu não teria esse pensamento em
relação à missa e ficaria mais sossegado.”
Achei engraçada a estória, fiquei curiosa com o velhinho. Interroguei-o novamente. “O que fez o senhor mudar de ideia e deixar de crer em Deus?” Novamente rindo de si mesmo ele rebate:
“Ah, eu fui me meter em fazer física. Só durante a faculdade já descartei várias crenças que havia em minha cabeça. Cheguei a trabalhar em Angra dos Reis no início da década de 70, eu era físico nuclear. Fiz amizades lá, conheci o “Mick”, um Inglês maluco amigo dos Mutantes que tomava ácido todo dia, até antes de ir para o trabalho. Era divertido, ele falava em Deus, que conversava com ele, que o via, que nós éramos seres divinos etc. Eu ficava brincando, falando que iria morrer e apertar a mão de Deus. Foi nesse momento da minha vida que comecei a me perguntar, de forma mais séria, coisas sobre a vida, sobre Deus. Comecei a descrer e descrer. Não foi de um dia para o outro, foi uma transição. É estranho dizer, minha querida, mas sei que não crer mais em Deus deixa a vida mais careta.”
Interessei-me
pela estória, queria saber mais, porém achei que não seria muito educado fazer
mais perguntas. Despedimos-nos e fui para casa observar o sorriso de Deus que, naquele dia, estava encoberto por nuvens. Ele deve ter ficado triste com a
nossa descrença e por isso se reservou. Fiquei lá, olhando para cima, tentando
achar seu sorriso. Não vi. Talvez eu tenha perdido a crença. Mudei minha
posição e olhei para baixo, mirei um bar há uns 100 metros de minha janela,
comecei a entender o motivo das pessoas encherem a cara. Talvez elas queiram
perder a caretice e recuperar a inocência, viver como criança e acreditar em
magia. Não resisti, desci e fui ao bar bater um papo com os caras, estavam
todos felizes e alegres, rindo à toa, jogando conversa pro alto e assistindo os
carros passarem. Pedi uma cerveja e tomei um copo. No segundo, um homem barbudo
pediu para me acompanhar, aceitei, queria conhecê-lo, será que ele acreditava
em Deus? Conversamos sobre tudo que se possa imaginar. Música, livros,
universo, política, dissertamos sobre a sociedade... Papo maravilhoso e cheio
de ternura! De repente, o homem levanta, deixa 20 reais na mesa e diz que
precisava ir. Num momento de desespero perguntei curiosa e aflita. “Você
acredita em Deus?”, ele para, se vira, olha fixamente em direção à mesa e diz:
“Há muito Deus pra pouco amor... mas como? Deus é amor. Ele está morrendo... Precisamos salvá-lo, ame um pouco mais e estará fazendo um bem à humanidade."
O homem se vira e vai embora na calada da noite escura. Eu, atordoada, fico lá. Sentada. Esperando respostas. Fico atônita com a resposta do cara que havia conhecido e me toco que eu não tinha perguntado o seu nome. Será Deus?
“Há muito Deus pra pouco amor... mas como? Deus é amor. Ele está morrendo... Precisamos salvá-lo, ame um pouco mais e estará fazendo um bem à humanidade."
O homem se vira e vai embora na calada da noite escura. Eu, atordoada, fico lá. Sentada. Esperando respostas. Fico atônita com a resposta do cara que havia conhecido e me toco que eu não tinha perguntado o seu nome. Será Deus?
Volto para
casa, ligo o rádio, deito na cama, troco de roupa, descanso meus pés e a música ecoa sobre meu quarto fechado e impregnado de flores. Num instante, a música
diz:
“Será que
baby sou eu?/Será que baby é você?/Será que baby é Deus?”
“A parti de
hoje, nunca mais penso em Deus”, sussurrei para mim. Ou era uma resposta dele para mim, me sacaneando, ou estava ficando louca e obcecada pelo assunto. A música terminou e
o rádio parou. Nesse momento me virei e olhei pela janela. Estava claro! ERA O
SORRISO DE DEUS!
Pedro Schiller