sexta-feira, 8 de agosto de 2014

Amor, humano, concreto, abstrato

Inventaram que o amor é substantivo abstrato.

Não é.

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Esse será um texto dogmático. Praticamente uma carta-manifesto. Hoje eu acordei meio Xico Sá, revoltado, gritado, quase perceptível. Mas não é propriamente o tipo de escrita a qual eu estou acostumado. Hoje eu acordei um péssimo escritor. Cheio de frases curtas, sinônimos, palavras fáceis e repetidas jorrando pelos dedos. E essa erudição irritante.

Ah. Como eu odeio erudição.

Até meu "ah" é erudito.

Ah.

Tô odiando essa porra. Mas você não tem nada a ver com isso. Então eu vou continuar.

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A mente humana tem a capacidade incrível de inventar mentiras pra se proteger.

"Segunda-feira eu começo." "Eu tenho amigos." "As pessoas não acham meu nariz escroto!"

Segunda-feira você vai comer uma porra de um bolo de chocolate inteiro no café da manhã. Você não tem amigos, filho, você passa a porra do dia inteiro jogando World of Warcraft no computador e só sai do quarto pra comer e mijar. As pessoas acham o seu nariz escroto porque existe um nariz no seu rosto e ele é escroto assim como o resto de você inteiro.

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Pronto. To melhor agora. Retomando.

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E essas mentiras flutuam em gravidades diferentes. Às vezes, são mentiras que simplesmente não flutuam. Como a do nariz escroto. E outras vezes, são mentiras que estão tão fixadas no padrão do comportamento humano que não são decifradas.

São mentiras palpáveis. Que existem. E que são verdade.

Uma delas é o tema desse texto-retomada-do-blog-largado-às-moscas-há-um-tempasso. E é o motivo dessa carta-manifesto.

A invenção das coisas foi por necessidade. A nomeação das coisas foi por uma necessidade maior ainda, eu diria. E a criação da linguagem se deveu por aí. Como ainda não existia milhagem nos tempos da puta que o pariu, ninguém sabia que não era o único povoado do planeta Terra. Com isso, cada um impôs a si mesmo sua própria maneira de falar, criando padrões chamados "língua".

Em Portugal, criou-se a língua portuguesa. Que evoluiu, foi instaurada aqui no Brasil como língua oficial depois de umas mudanças causadas por esse funil cultural que é o meu país e começou a ser explicada através da escrita.

Não me pergunte porque explicam uma língua pra alguém que já a escreve desde os 5 anos de idade e nunca perguntou nada sobre porque ela é assim. Até porque eu não te responderia. Porque se você faz esse tipo de pergunta, você é um ignorante que fala miguxês e acha maneiro. E isso não é maneiro.

Mas eu queria saber onde diabos da história mandaram todos os estudantes de letras (que não são de História, claramente) propagar pelo mundo a falácia de que "amor" é um substantivo abstrato. Porra! Vamo acordar, galera!

O amor não é substantivo abstrato. E essa é a mãe de todas as mentiras porque está tão incrustrada na cabeça das pessoas que fazem a cabeça das pessoas que farão a cabeça de outras pessoas no futuro que parece absurdo um marginal dizer o contrário pra vocês. E é. Mas a verdade é sempre absurda. Ainda mais quando implodem uma mentira protetora. Aí, é pior ainda.

O amor existe. Ele é fraco, pequeno, frágil, destrutível e não traz felicidade.
É. Isso mermo. A língua portuguesa, as comédias românticas, os contos dos irmãos Grimm, todo essa galera mentiu pra você. Fez você de bobo. Ta rindo de você até agora. Tudo caô. Caô brabo.

Mas eu vou te dizer... não foi uma mentira consciente. Não vale a pena viver nesse mundo sem amor. Eu me mataria. Mas entre cometer suicídio e mentir pra si mesmo, a segunda opção parece bem mais sedutora. Pra todos nós. Sempre. O amor é substantivo abstrato para a língua portuguesa porque alguém perdido nos rumos que a história tomou não soube encarar a verdade: o amor não existe sem nós mas não sobrevive entre nós.

Os finais felizes dos contos infantis e das comédias românticas de Hollywood, assim como a explicitação da língua portuguesa, vem de uma mente humana. Uma mente humana sonhadora, não realista. Que busca subterfúgios pra não cair face à realidade. E pra carregar outras almas consigo rumo à plenitude da mentira protetora.

Não, isso não é um discurso panfletário do suicídio coletivo. Calma. É que a mente humana é o habitat natural do amor perfeito.

Aqui, de onde saem essas palavras e essas ideias, o amor não dá errado. Porque não está em território estranho, sendo posto entre orgulhos, egos, e seres humanos. Na literatura e no cinema, existem personagens. Existem sombras de uma criatividade como a minha e a sua, condicionadas a pensar que o amor pode acontecer. Mas não pode.

Porque quando o amor é puro, amado, recíproco, ele é colocado em risco. O espaço entre dois corpos é zona perigosa. Ele não sobrevive. Ele não é ser humano. Ele não entende o que é ser humano. O amor não foi feito para entender. E morre. E dói.

O amor amado tem prazo de validade. A tragédia é uma opção mas o fim é uma condição. Shakespeare é inevitável. E dói.

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Todo amor começa em uma punheta.

Eu digo amor. Não digo namoro. Não digo sexo. Não digo casamento. Não digo filho. Eu digo amor.

No campo livre da mente, a raíz de tudo é uma suposição - que cresce e rende frutos no restante do corpo. Meu pensamento é a raíz do que os meus dedos ditam.

A punheta tem muitas raízes. Uma das menos comuns é o amor.

O amor tem muitas raízes. Uma das mais comuns é a punheta.

A mente é sempre uma fuga. Na mesma proporção que possui o poder de mentir, possui o poder de criar. Cria músicas, personagens, quartos, prédios, contas, problemas, filhos, cães... e amores. Que não existem. Que às vezes nem sequer poderiam existir.

A suposição de uma verdade acaba em uma punheta. Que impulsiona uma proximidade. Que ocasiona outras punhetas. Que criam uma paixão. Que vira amor. Em toda perfeição que se pode ocorrer dentro de uma mente humana. E é aí que entra a razão dessa dissertação.

O amor que não é recíproco dá certo, indubitavelmente. O amor, da parte de um, que não existe da parte do outro é eterno. O amor que não existe da parte de ninguém é eterno também. Funciona. Não precisa de mais nada.

Agora, o amor amado não. Ele precisa de um antídoto, algo que o traga de volta pras suas suposições primárias, pros seus desejos apagados pela realidade de um meio hostil.

O sexo é o antídoto do amor.

No sexo, se coloca aquilo que se idealiza. Se vive aquilo que se pensa. No sexo, tudo retorna à sensação embrionária, do impulso ao amor, da raíz do sentimento, das suposições no campo livre onde tudo pode ser perfeito se a gente quiser.

O amor é racional. Procura-se entender, procura-se explicar. O sexo não. Assim como o humano.

O amor é perfeito até invadir a realidade. Depois é rápido, efêmero, dura pouco, passa rápido. É fadado ao fracasso. Exceto quando se descobre o impulso originário de todo o desejo.

Amor é concreto. Humano é abstrato.

E o Shakespeare não comia ninguém.


Rafael Balla

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

Siné do que?

O dia estava a pino. As pessoas suadas, cansadas. E eu ali. Parado. Na Voluntários da Pátria. Em frente ao sinal, esperando abrir para mim. As rodas, eram muitas, e do meu lado, cada vez mais pedestres, uns baixos, outros altos, uns com chapéu, outros sem. De todo o tipo, de toda beleza, uns mais marginais, outros mais caretas, até que, no meio da muvuca, aparece um casal de ternos no meio de nós. Os dois pareciam apressados, aflitos, andavam para lá e para cá em um espaço curtíssimo. Um olhava para os carros, para o relógio, para o sinal... O outro, para cima, para baixo, para esquerda, direita, para os carros, para mim, para os outros, para o sinal... Parecia muito mais apressado que o primeiro. Achei curioso e passei a observá-los: cada gesto, cada olhar, seus movimentos. O que parecia mais agitado, de repente, ameaça a atravessar no meio das latas. Eram tantas, mal podia contar... 1, 2, 3, 4? Já contei esse? Eram muitos! Mas o tal do paletó foi para cima, ligeiro! Foi, atravessou metade da rua, voltou. Foi novamente e voltou. Ameaçou ir, parou. Foi! Foi! Voltou! Foi! Conseguiu atravessar com uma corridinha no final! Vitória? Dificilmente. Um dos pneus que passava gritou e agrediu-o verbalmente. O terno, então, com expressão de irritação e aparentando ter razão, mandou o pneu voltar à fábrica e ainda afirmou que esta fazia relações carnais em troca de papéis com valores numéricos. O pneu seguiu em frente enquanto o traje escuro ambulante ia esbarrando e rosnando para os panos que andavam na calçada. E aquele paletó que havia ficado do meu lado, o mais reservado, esperou as carruagens pararem e foi atravessando, apressado, mas não havia notado que o sinal não estava fechado para as rodas, que haviam parado para não fechar o cruzamento. Levou um coice de frente, uma cacetada na boca do estômago de uns 110 cavalos. Não chegou a cair e seguiu em frente. Logicamente, adjetivando os cavalinhos até a geração seguinte.

Finalmente o sinal abriu para nós, pés, que atravessamos tranquilamente e sem estresse, exceto pelo calor, que era insuportável. Fui andando para o Humaitá e pensando nesses ternos. Queria saber a lógica disso andar no Rio de janeiro, cuja temperatura agita bem as molequinhas e faz a gente suar feito sei lá o que. Dizem que eles são finos e que ‘’gente fina é outra coisa’’. Realmente... É uma coisa muita da esquisita mesmo. 


Pedro Schiller