sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

Coerção Perversa

(Não quero escrever bonito. Abusarei dos parênteses. Contente-se com isso. Aliás, o bonito é relativo, portanto estou errado ao dizer que não quero escrever bonito. O ideal seria dizer que não quero escrever de modo formal. É isso. Não tenho compromisso com a formalidade hoje - até porque esta foi convencionada e detesto convenções. Pois bem, até comecei o texto com parênteses para você ir se acostumando. Viu? eu penso em você com carinho, acredite.)

Desde pequeno nunca entendi certos dogmas da vida. Questionava-me calado e tentava elaborar um raciocínio que pudesse clarear minha mente. Falhei na maioria das vezes, o que poderia deixar-me imensamente frustrado, mas via que tudo não passava de uma convenção. A lógica nem sempre era o foco principal.

Toda vez que eu tentava entender o porquê de certo termo, acabava aceitando a condição de que minha conclusão estaria errada, mesmo sem saber o motivo pelo qual se usava tal termo. Comecei, então, a elaborar medidas, dentro de minha caixola, para que eu pudesse refletir sobre o assunto sem sofrer qualquer tipo de influência externa. Com isso, delirava com meus parafusos a fim de achar a resposta mais coesa. Ao final do processo, quando finalmente descobria a resposta, torcia para que não estivesse de acordo com o que eu havia imaginado. Ficava feliz, pois em minha cabeça (quero frisar isso) eu estava num mundo em que não podiam me tirar jamais. Quando somos crianças temos esses delírios, coisa rara na vida adulta. Pois bem, quero mostrar alguns exemplos...

Veja o exemplo I:
Um grupo de 3 pessoas está sentado em uma mesa de bar. O garçom diz para o outro "Eles pediram a conta..." e depois aponta para uma mesa com duas moças e continua "...essas aqui acabaram de chegar, dê o cardápio para elas". Tudo bem. Vemos, aqui, que, diferentemente da língua inglesa, temos pronomes distintos para designar homens e mulheres no plural. Perfeito. Pelo menos nem todo imperialismo deles está presente na nossa cultura. Partamos ao próximo exemplo!

Exemplo II:
Um homem sentado em uma mesa juntamente com três mulheres. O garçom do restaurante olha a situação e diz “Aqueles ali acabaram de chegar’’. Nota? ‘’Aqueles’’.

Exemplo III:
A mesma situação. Uma mulher mira a mesa e diz: ‘’Eles vão demorar muito?’’ Perceba: ‘’Eles’’.

Conclusão:
Minha mente, ainda em desenvolvimento no primeiro momento, poderia propor que: o fato de o garçom ter utilizado um pronome demonstrativo masculino para designar as três mulheres e o homem (exemplo II) deu-se devido ao sexo do locutor, masculino. Sim, é esquisito, mas não vejo outra explicação, pois descarto logo de início a ideia de maioria, já que temos 3 indivíduos do sexo feminino e apenas um do masculino. Porém, (Note a linha torta ao decorrer da lógica) no exemplo III, quando o locutor é feminino, a frase foi construída com a mesma linha de raciocínio do exemplo anterior (se é que se pode chamar tal fato de raciocínio). ‘’Eles’’ remete ao mesmo grupo, e eu, em minha situação de criança, via o caos que poderia ser a vida seguida na mesma linha de raciocínio em que as frases foram construídas. Logo mais tarde percebi que, de fato, o mundo todo seguia este tipo de raciocínio. Daí comecei a entender o porquê de todo o caos. Vamos ao segundo caso... 

Dentre meus devaneios quando criança, um dos que mais me incomodava era aquele de que Homem é sinônimo de Humanidade, ou de Ser Humano, ou de Homo Sapiens. Aliás, até aceitaria o termo ‘’Homem’’ (no sentido morfológico) ser sinônimo disso tudo, contanto que ‘’Homem’’, na forma mais simples de substantivo, referisse-se ao ser feminino (Gosto de uma inversão: Mulier Sapiens). Essa minha teimosa inquietação não se conformava com a loucura do ‘’mundo civilizado’’. Para mim, era tudo antilógico (no sentido de ser contra a lógica e não ‘’ilógico’’, quando não se tem lógica) e outorgado. “Os ‘homens’ são loucos e não queria fazer parte disso!’’ E ainda tem aquela história de que Eva veio da costela de Adão. E que Adão foi formado a partir da imagem de Deus etc, etc. Ora, até você, Deus? Até Deus sofreu tal subordinação? Talvez Nietzsche estivesse certo, Deus não suportara tanta imposição e morrera de tristeza. 

Simbolizar o gênero Homo com a palavra ‘’Homem’’ é um crime contra o tal ‘’Homem’’, ou, mais generosamente, Humanidade. A mulher tem um papel muito mais importante na história, pois é ela quem dá a luz, quem carrega o futuro por cerca de 9 meses, quem amamenta, quem tem o primeiro contato com a nova vida. A mulher é a procriadora e possibilita a existência de nossa espécie. Mulheres são maioria no mundo, mas desde que o Homem (até eu sou contaminado por esta praga) passa a ocupar mais espaço no globo terrestre, a imagem do ser masculino como representante da humanidade passa a ser cada vez mais forte. Hoje, até acho válido associar a imagem do Homem, ser masculino, com a imagem da humanidade decadente. Mas, jamais, atrelaria a imagem da Mulher com os males dessa tal civilizada espécie ‘’Homo Sapiens’’, pois, até hoje, o espaço que a mulher teve no espaço das relações políticas foi irrisório e, portanto, não podemos, em hipótese alguma, associar os defeitos crônicos de nosso mundo contemporâneo à imagem do ser feminino. É um crime à mulher, um crime à palavra. 


Pedro Schiller

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

Que título mais sem criatividade! Coloque um título descente!

Vai botar uma camisa cara que você precisa ir bem arrumado! Você não pode ir com essa camisa, ela não tem marca nenhuma e é cinza, camisa cinza não demonstra personalidade! Toma essa aqui, essa aqui é de marca, é cara, aparece nas novelas e tem cores bem vivas. Troca a bermuda e coloca essa calça. Não, esse chinelo não é legal. Coloque um tênis, vai logo que eles precisam saber que você é interessante. Pensando bem, essa camisa não ficou bacana. E quanto ao tênis... acho melhor trocar por um sapato, vai! Coloque uma camisa social e aquele sapato preto que é coisa de homem importante. Ajeita o cabelo, tá todo bagunçado. E tira essa pulseira ridícula que vão pensar que você é vagabundo. Nossa, ficou esquisito, tira esse jeans. Coloque uma mais fina, daquelas de executivo, vai! E o cabelo? Não vai arrumar? Toma a escova, anda garoto! Ah, e esse andar? Parece que tá querendo parecer rebelde... Anda direito! Não, ficou horrível, deixa eu arrumar seu cabelo. Tá precisando aparar, hein? Tá muito desgrenhado, mas agora não dá tempo, passe gel e me chama pra pentear. Devia ser mais liso, também. Pronto, agora tá bonito, mas acho melhor você colocar um blazer! Ah, e uma gravata! Que tal aquele relógio caro do seu pai? Acho que você tá precisando fazer uma plástica aqui. Tira essa cara de ‘’saco cheio’’ do rosto, coloca um sorriso na cara, parece que não quer mostrar que é legal. Agora tá bonito, mas acho que precisava pegar uma corzinha, por que não foi à praia? Não, espera! Esse olho devia ser azul, a gente podia comprar lentes de contato. E essas unhas? Não vai cortar? Você ta cheio de olheira, acho que deveria passar uma maquiagem pra disfarçar. Ah, essa sobrancelha também, tá muito grande... E essas suas pernas são muito longas, devia ter crescido menos, é todo desajeitado. Vai, anda direito, para de respirar assim, parece asmático, vai. Ah, outra coisa, por que você não nasceu loiro? Menino esquisito. Não mostra esse celular pras pessoas, hein? Eu devia ter comprado um iPhone pra você... Toma, leva carteira e cartão de crédito para parecer que você tem muito dinheiro. E cospe esse chiclete, garoto! Gente fina não masca chiclete! Vai! E nada de querer ficar escutando música no celular! Ainda mais essas músicas que ninguém entende e que parece coisa de maluco! Vai! Eu não falei pra tirar essa pulseira? Fecha a boca pra não entrar mosca! Essa sua orelha é grande demais, você não toma jeito mesmo. Toma essa bala de hortelã para ficar com um bom hálito e cospe logo essa porcaria desse chiclete! Ah, não, você não vai levar esse livro, vai? Colocou perfume? Escovou os dentes? Hein? 


Pedro Schiller

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

Amor, humano, concreto, abstrato

Inventaram que o amor é substantivo abstrato.

Não é.

***

Esse será um texto dogmático. Praticamente uma carta-manifesto. Hoje eu acordei meio Xico Sá, revoltado, gritado, quase perceptível. Mas não é propriamente o tipo de escrita a qual eu estou acostumado. Hoje eu acordei um péssimo escritor. Cheio de frases curtas, sinônimos, palavras fáceis e repetidas jorrando pelos dedos. E essa erudição irritante.

Ah. Como eu odeio erudição.

Até meu "ah" é erudito.

Ah.

Tô odiando essa porra. Mas você não tem nada a ver com isso. Então eu vou continuar.

***

A mente humana tem a capacidade incrível de inventar mentiras pra se proteger.

"Segunda-feira eu começo." "Eu tenho amigos." "As pessoas não acham meu nariz escroto!"

Segunda-feira você vai comer uma porra de um bolo de chocolate inteiro no café da manhã. Você não tem amigos, filho, você passa a porra do dia inteiro jogando World of Warcraft no computador e só sai do quarto pra comer e mijar. As pessoas acham o seu nariz escroto porque existe um nariz no seu rosto e ele é escroto assim como o resto de você inteiro.

***

Pronto. To melhor agora. Retomando.

***

E essas mentiras flutuam em gravidades diferentes. Às vezes, são mentiras que simplesmente não flutuam. Como a do nariz escroto. E outras vezes, são mentiras que estão tão fixadas no padrão do comportamento humano que não são decifradas.

São mentiras palpáveis. Que existem. E que são verdade.

Uma delas é o tema desse texto-retomada-do-blog-largado-às-moscas-há-um-tempasso. E é o motivo dessa carta-manifesto.

A invenção das coisas foi por necessidade. A nomeação das coisas foi por uma necessidade maior ainda, eu diria. E a criação da linguagem se deveu por aí. Como ainda não existia milhagem nos tempos da puta que o pariu, ninguém sabia que não era o único povoado do planeta Terra. Com isso, cada um impôs a si mesmo sua própria maneira de falar, criando padrões chamados "língua".

Em Portugal, criou-se a língua portuguesa. Que evoluiu, foi instaurada aqui no Brasil como língua oficial depois de umas mudanças causadas por esse funil cultural que é o meu país e começou a ser explicada através da escrita.

Não me pergunte porque explicam uma língua pra alguém que já a escreve desde os 5 anos de idade e nunca perguntou nada sobre porque ela é assim. Até porque eu não te responderia. Porque se você faz esse tipo de pergunta, você é um ignorante que fala miguxês e acha maneiro. E isso não é maneiro.

Mas eu queria saber onde diabos da história mandaram todos os estudantes de letras (que não são de História, claramente) propagar pelo mundo a falácia de que "amor" é um substantivo abstrato. Porra! Vamo acordar, galera!

O amor não é substantivo abstrato. E essa é a mãe de todas as mentiras porque está tão incrustrada na cabeça das pessoas que fazem a cabeça das pessoas que farão a cabeça de outras pessoas no futuro que parece absurdo um marginal dizer o contrário pra vocês. E é. Mas a verdade é sempre absurda. Ainda mais quando implodem uma mentira protetora. Aí, é pior ainda.

O amor existe. Ele é fraco, pequeno, frágil, destrutível e não traz felicidade.
É. Isso mermo. A língua portuguesa, as comédias românticas, os contos dos irmãos Grimm, todo essa galera mentiu pra você. Fez você de bobo. Ta rindo de você até agora. Tudo caô. Caô brabo.

Mas eu vou te dizer... não foi uma mentira consciente. Não vale a pena viver nesse mundo sem amor. Eu me mataria. Mas entre cometer suicídio e mentir pra si mesmo, a segunda opção parece bem mais sedutora. Pra todos nós. Sempre. O amor é substantivo abstrato para a língua portuguesa porque alguém perdido nos rumos que a história tomou não soube encarar a verdade: o amor não existe sem nós mas não sobrevive entre nós.

Os finais felizes dos contos infantis e das comédias românticas de Hollywood, assim como a explicitação da língua portuguesa, vem de uma mente humana. Uma mente humana sonhadora, não realista. Que busca subterfúgios pra não cair face à realidade. E pra carregar outras almas consigo rumo à plenitude da mentira protetora.

Não, isso não é um discurso panfletário do suicídio coletivo. Calma. É que a mente humana é o habitat natural do amor perfeito.

Aqui, de onde saem essas palavras e essas ideias, o amor não dá errado. Porque não está em território estranho, sendo posto entre orgulhos, egos, e seres humanos. Na literatura e no cinema, existem personagens. Existem sombras de uma criatividade como a minha e a sua, condicionadas a pensar que o amor pode acontecer. Mas não pode.

Porque quando o amor é puro, amado, recíproco, ele é colocado em risco. O espaço entre dois corpos é zona perigosa. Ele não sobrevive. Ele não é ser humano. Ele não entende o que é ser humano. O amor não foi feito para entender. E morre. E dói.

O amor amado tem prazo de validade. A tragédia é uma opção mas o fim é uma condição. Shakespeare é inevitável. E dói.

***

Todo amor começa em uma punheta.

Eu digo amor. Não digo namoro. Não digo sexo. Não digo casamento. Não digo filho. Eu digo amor.

No campo livre da mente, a raíz de tudo é uma suposição - que cresce e rende frutos no restante do corpo. Meu pensamento é a raíz do que os meus dedos ditam.

A punheta tem muitas raízes. Uma das menos comuns é o amor.

O amor tem muitas raízes. Uma das mais comuns é a punheta.

A mente é sempre uma fuga. Na mesma proporção que possui o poder de mentir, possui o poder de criar. Cria músicas, personagens, quartos, prédios, contas, problemas, filhos, cães... e amores. Que não existem. Que às vezes nem sequer poderiam existir.

A suposição de uma verdade acaba em uma punheta. Que impulsiona uma proximidade. Que ocasiona outras punhetas. Que criam uma paixão. Que vira amor. Em toda perfeição que se pode ocorrer dentro de uma mente humana. E é aí que entra a razão dessa dissertação.

O amor que não é recíproco dá certo, indubitavelmente. O amor, da parte de um, que não existe da parte do outro é eterno. O amor que não existe da parte de ninguém é eterno também. Funciona. Não precisa de mais nada.

Agora, o amor amado não. Ele precisa de um antídoto, algo que o traga de volta pras suas suposições primárias, pros seus desejos apagados pela realidade de um meio hostil.

O sexo é o antídoto do amor.

No sexo, se coloca aquilo que se idealiza. Se vive aquilo que se pensa. No sexo, tudo retorna à sensação embrionária, do impulso ao amor, da raíz do sentimento, das suposições no campo livre onde tudo pode ser perfeito se a gente quiser.

O amor é racional. Procura-se entender, procura-se explicar. O sexo não. Assim como o humano.

O amor é perfeito até invadir a realidade. Depois é rápido, efêmero, dura pouco, passa rápido. É fadado ao fracasso. Exceto quando se descobre o impulso originário de todo o desejo.

Amor é concreto. Humano é abstrato.

E o Shakespeare não comia ninguém.


Rafael Balla

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

Siné do que?

O dia estava a pino. As pessoas suadas, cansadas. E eu ali. Parado. Na Voluntários da Pátria. Em frente ao sinal, esperando abrir para mim. As rodas, eram muitas, e do meu lado, cada vez mais pedestres, uns baixos, outros altos, uns com chapéu, outros sem. De todo o tipo, de toda beleza, uns mais marginais, outros mais caretas, até que, no meio da muvuca, aparece um casal de ternos no meio de nós. Os dois pareciam apressados, aflitos, andavam para lá e para cá em um espaço curtíssimo. Um olhava para os carros, para o relógio, para o sinal... O outro, para cima, para baixo, para esquerda, direita, para os carros, para mim, para os outros, para o sinal... Parecia muito mais apressado que o primeiro. Achei curioso e passei a observá-los: cada gesto, cada olhar, seus movimentos. O que parecia mais agitado, de repente, ameaça a atravessar no meio das latas. Eram tantas, mal podia contar... 1, 2, 3, 4? Já contei esse? Eram muitos! Mas o tal do paletó foi para cima, ligeiro! Foi, atravessou metade da rua, voltou. Foi novamente e voltou. Ameaçou ir, parou. Foi! Foi! Voltou! Foi! Conseguiu atravessar com uma corridinha no final! Vitória? Dificilmente. Um dos pneus que passava gritou e agrediu-o verbalmente. O terno, então, com expressão de irritação e aparentando ter razão, mandou o pneu voltar à fábrica e ainda afirmou que esta fazia relações carnais em troca de papéis com valores numéricos. O pneu seguiu em frente enquanto o traje escuro ambulante ia esbarrando e rosnando para os panos que andavam na calçada. E aquele paletó que havia ficado do meu lado, o mais reservado, esperou as carruagens pararem e foi atravessando, apressado, mas não havia notado que o sinal não estava fechado para as rodas, que haviam parado para não fechar o cruzamento. Levou um coice de frente, uma cacetada na boca do estômago de uns 110 cavalos. Não chegou a cair e seguiu em frente. Logicamente, adjetivando os cavalinhos até a geração seguinte.

Finalmente o sinal abriu para nós, pés, que atravessamos tranquilamente e sem estresse, exceto pelo calor, que era insuportável. Fui andando para o Humaitá e pensando nesses ternos. Queria saber a lógica disso andar no Rio de janeiro, cuja temperatura agita bem as molequinhas e faz a gente suar feito sei lá o que. Dizem que eles são finos e que ‘’gente fina é outra coisa’’. Realmente... É uma coisa muita da esquisita mesmo. 


Pedro Schiller

domingo, 27 de julho de 2014

O sorriso de Deus

De repente olho pro céu e vejo a lua sorridente. ‘’Parece mágica, parece mágica’’, “É o sorriso de Deus”, dizia quando tinha 4 anos. Era engraçado, eu não entendia como o mundo funcionava, fico imaginando se, por algum instante, eu pudesse viver em um mundo em que tudo é mágica. Nascer há alguns milênios e acreditar em vários Deuses, faria da vida uma fantasia.

Fica sem graça, perde a beleza quando descaramos os segredos da natureza. Tudo tem uma explicação feia e complexa que tira a beleza de acreditar num mundo místico. Quando descobri que a Lua não era o sorriso de Deus fiquei profundamente desiludida, imagina a poesia sem uma metáfora? Não é poesia.

Outro dia um senhor veio até mim e perguntou se eu já tinha deixado de acreditar em Deus. Eu disse que não tinha certeza. É muita prepotência dizer que não acredito, portanto falei que não sabia, o que é verdade. Ele me olhou, sorriu e falou que eu provavelmente estava no caminho certo e que logo mais acharia a resposta. Não me contive e perguntei se ele acreditava em um ser divino e o sujeito me respondeu rindo de si mesmo, com uma feição de inocência:

“Infelizmente, não. As coisas que vivi me fizeram deixar de acreditar e acabar com parte da minha infância e adolescência. Fico pensando se eu pudesse retornar e recuperar o tempo perdido nas missas. Certamente eu não teria o sentimento de tempo perdido. Quem sabe? Eu poderia ter utilizado esse tempo para aprender um instrumento. Agora, com a minha velhice, fico querendo voltar ao passado. Ou até mesmo voltar a acreditar em Deus. Aí eu não teria esse pensamento em relação à missa e ficaria mais sossegado.”

Achei engraçada a estória, fiquei curiosa com o velhinho. Interroguei-o novamente. “O que fez o senhor mudar de ideia e deixar de crer em Deus?” Novamente rindo de si mesmo ele rebate:

“Ah, eu fui me meter em fazer física. Só durante a faculdade já descartei várias crenças que havia em minha cabeça. Cheguei a trabalhar em Angra dos Reis no início da década de 70, eu era físico nuclear. Fiz amizades lá, conheci o “Mick”, um Inglês maluco amigo dos Mutantes que tomava ácido todo dia, até antes de ir para o trabalho. Era divertido, ele falava em Deus, que conversava com ele, que o via, que nós éramos seres divinos etc. Eu ficava brincando, falando que iria morrer e apertar a mão de Deus. Foi nesse momento da minha vida que comecei a me perguntar, de forma mais séria, coisas sobre a vida, sobre Deus. Comecei a descrer e descrer. Não foi de um dia para o outro, foi uma transição. É estranho dizer, minha querida, mas sei que não crer mais em Deus deixa a vida mais careta.”

Interessei-me pela estória, queria saber mais, porém achei que não seria muito educado fazer mais perguntas. Despedimos-nos e fui para casa observar o sorriso de Deus que, naquele dia, estava encoberto por nuvens. Ele deve ter ficado triste com a nossa descrença e por isso se reservou. Fiquei lá, olhando para cima, tentando achar seu sorriso. Não vi. Talvez eu tenha perdido a crença. Mudei minha posição e olhei para baixo, mirei um bar há uns 100 metros de minha janela, comecei a entender o motivo das pessoas encherem a cara. Talvez elas queiram perder a caretice e recuperar a inocência, viver como criança e acreditar em magia. Não resisti, desci e fui ao bar bater um papo com os caras, estavam todos felizes e alegres, rindo à toa, jogando conversa pro alto e assistindo os carros passarem. Pedi uma cerveja e tomei um copo. No segundo, um homem barbudo pediu para me acompanhar, aceitei, queria conhecê-lo, será que ele acreditava em Deus? Conversamos sobre tudo que se possa imaginar. Música, livros, universo, política, dissertamos sobre a sociedade... Papo maravilhoso e cheio de ternura! De repente, o homem levanta, deixa 20 reais na mesa e diz que precisava ir. Num momento de desespero perguntei curiosa e aflita. “Você acredita em Deus?”, ele para, se vira, olha fixamente em direção à mesa e diz:

“Há muito Deus pra pouco amor... mas como? Deus é amor. Ele está morrendo... Precisamos salvá-lo, ame um pouco mais e estará fazendo um bem à humanidade."

O homem se vira e vai embora na calada da noite escura. Eu, atordoada, fico lá. Sentada. Esperando respostas. Fico atônita com a resposta do cara que havia conhecido e me toco que eu não tinha perguntado o seu nome. Será Deus?

Volto para casa, ligo o rádio, deito na cama, troco de roupa, descanso meus pés e a música ecoa sobre meu quarto fechado e impregnado de flores. Num instante, a música diz:

“Será que baby sou eu?/Será que baby é você?/Será que baby é Deus?”

“A parti de hoje, nunca mais penso em Deus”, sussurrei para mim. Ou era uma resposta dele para mim, me sacaneando, ou estava ficando louca e obcecada pelo assunto. A música terminou e o rádio parou. Nesse momento me virei e olhei pela janela. Estava claro! ERA O SORRISO DE DEUS!



Pedro Schiller

terça-feira, 11 de março de 2014

Breu infinito

Entre cacos e delírios
Adentro a casa do homem 
Que não vê a sua real situação
Se ele acha que não me conhecerá,
Pelo fato de ser jovem, 
Saberá que comigo não há persuasão.

Sou irremediável, irrefutável, iconfundível e inevitável

Sou a solução de quem não vê a razão
Sou alívio ao sofredor.
Sou, e nunca vou deixar de ser, aquilo que te move
Sou o giro do mundo
Sou o fim além da percepção.

Aquele que se vê encurralado se sente aliviado ao notar-me

Pois sozinho nesse breu infinito esta ele perdido e infeliz,
Estirado com a garrafa na mão.
O final velado de uma história trágica.
Teu caminho que define minha chegada, 
É como um carro numa estrada.

Nosso silêncio é mútuo,

Nosso tudo é nada,
Nossa viagem é longa,
Nosso encontro é no escuro,
Nossos mundos não são os mesmos.
Só lhe faço um pedido,
Que me acolha como amiga.



Arthur Rangel

sábado, 8 de fevereiro de 2014

Ultimo romance

Gregório era o infeliz tipo de homem que amava demais, e que externava esse amor, mesmo sem ser correspondido. Ele um típico romântico intelectual até demais, poucas mulheres, poucas festas, pouca adolescência, sempre foi extremamente inseguro. Ela, por outro lado, era uma típica patricinha, não era burra, nem tão fútil quanto às pessoas a seu redor julgavam que ela fosse. Luana era uma verdadeira descrente do amor.
Entre risos e tapas delicados Luana começa a falar.
-Sabe que você é um ESCROTO. Para de apertar minha barriga porra!
- Para de ser chata!
- Tira seu rostinho suado dos meus peitos.
- Eu tenho esse direito! Afinal estamos juntos há quase três meses, não é “amorzinho”.
Ela fica séria, ele percebe. Após alguns segundos tudo fica silencioso. Ele então quebra o silencio.
- Eu sei que você odeia quando eu toco nesse assunto, mas... Não sei se eu quero continuar fazendo as coisas assim.
- Assim como?
- Porra, Eu realmente acho errado desperdiçar isso num mero caso. Eu tenho total noção que sou um cara meio velho, e às vezes até antiquado, mas eu gosto de você o suficiente pra ver que eu não quero que isso acabe. Não quero que cada um vá pro seu canto triste, sozinhos, rancorosos, e ambos se perguntando “o que é que eu fiz de errado dessa vez?”.
Ela responde ainda extremamente séria:
- Oque você quer então?
- viver um romance, mesmo que passageiro, mas viver isso, esse exato momento, como se nada mais importasse. Mesmo que acabe, lá no fundo de nossas almas ainda vamos nos lembrar de ter vivido um amor singelo e real. Nada de muito fantasioso.
- Você é o cara mais fresco que eu conheço. As vezes eu penso como eu posso ter realmente ficado com você. Você parece uma menina de 14 anos que sonha com um príncipe encantado! Para de palhaçada. Seja um homem, me come e me esquece.
Gregório sente aquilo dentro de si, é como se tudo se tornasse cinza, mórbido, monótono. Ele fica realmente triste após a declaração de Luana. Ele então fala:
-Sabe oque me deixa mais puto?
-Oque?
-Eu vou agora pegar minhas coisas, me vestir, tirar tudo oque é meu e colocar na minha mochila. Então eu vou pra casa, quando eu chegar em casa provavelmente vai estar tocando alguma coisa, no rádio, que me lembre você. Ai eu vou pegar a merda da garrafa de uísque e vou começar a beber, vou ficar tão bêbado que vou acordar no dia seguinte com o coração dilacerado e com uma dor de cabeça fudida. Eu vou chegar no trabalho atrasado, meu chefe vai me dar um esporro, vou voltar pra casa e vou escrever essa merda de história.
- Como você sabe dessa sequencia tão linear .

- É porque é exatamente oque acontece quando eu amo alguém.


Arthur Rangel