quinta-feira, 23 de abril de 2015

Planeta Dissimulado

A safadeza ali
Virou um vício
Vidrado naquilo
Que anda e culmina
No desperdício.

Um viva para
Todos os costumes
Condenados
Que entrelaçam 
Nossas vidas.

Que suaviza e amortiza
A nossa história, 
Encarnado na escória
Precedendo nossos
Sonos efêmeros e eternos.

Chame de justiça 
Quando a briga
For de iguais,
Pois jamais 
Serão maltratados

Escuta o som
Que aquela gazeta
Permite-nos escutar?
São todos caretas preocupados
Com a sala de estar

Infelizes moscas
Abandonadas e ofendidas
Ao viverem subordinadas
Às sopas dos outros.
Infelizes moscas

Obrigadas a ouvir
Tudo tão chato.
"Mato a primeira que vier"
Sou raso, opaco e
Pretendo tudo!

Prefiro ser
A borboleta mais feia.
Não chateia a vida
Não esperneia a morte
E consegue ser, ainda, uma beleza

Estranheza, a nossa
Que julga toda beleza
Em estranheza. 
Boniteza, mesa, 
lindeza

De pureza
Vive a natureza
Linda!
A fumaça surge 
E estrambelha
Toda a braveza

Somos pobreza 
Embalsamada 
Em tristeza.
Somos nada
Que merece destreza.


Pedro Schiller

Dos Sapatos às Botas

Levanta como se tivesse atrasado para o dia, vestindo a roupa depressa, tomando o café frio do dia anterior, roendo as unhas das mãos... O dia ainda nem estava de pé, mas o rapaz havia levantado cedo. O despertador estaria para tocar em alguns minutos. Na realidade, o rapaz nem precisava de despertador, acordaria por ansiedade. Ele, então, senta na cama e espera-o tocar. Espera observando a destreza da vida, a saudade que já é sentida por muitos, porém percebida por poucos. A reflexão é repentina e efêmera, a impaciência, autoritária, surge e abafa as emoções do homem que, de tanto esperar, desliga o aparelho. Atitude nobre? Talvez. Levanta-se a fim de procurar algo que lhe distraia a cabeça, que lhe possa proporcionar a doce ilusão do tempo andar mais ligeiro. O relógio na parede, dialogando com o tempo universal, não ajuda, ele, com isso, começa a ficar nervoso por algo que não sabe decifrar devido a sua ansiedade. O sol encoberto por prédios espreguiça-se no horizonte e o homem anda pela casa,  procurando seu destino, seu lugar. O dia estava de mau humor, o céu fechado por nuvens fariam dele ainda menor. As pessoas começam a esboçar energia para sair de suas camas num dia com baixa temperatura (o termômetro marca -5º), o rapaz, aflito, prepara um pão para abafar sua inquietação e desamarra o cadarço da bota, que já inquieta. As criaturas da casa começam a despertar e o tempo a rodar, rodar e a rodar... As luzes das ruas são, enfim, apagadas pois incidência solar já é suficiente para iluminá-la adequadamente. Poucos são os que arriscam sair de casa. Uns tiram neve dos carros e da entrada. Outros checam a rua para ver se está tudo certo. O homem pega suas coisas e coloca-as do lado de fora da casa. Abraça a mulher e os 2 filhos.


Talvez os sapatos não lhe sirvam mais. Já está na hora de partir, o futuro é incerto. Poderá, a morte, ser a única companhia real do homem nos próximos dias. O diabo estará à espreita do conflito e não serei eu que estará para contar história.


Pedro Schiller