domingo, 25 de agosto de 2013

O homem que esperava

                   
Era uma rua tão vazia que eu nem podia me lembrar dos carros que passeavam nela.
Você disse "esteja lá", e aqui estou... de pé, em frente para sua futura partida. 
Segurando a respiração, contando os segundos negativos, com os ventos cortando meus olhos. 
Seu toque era como o chão rodeado por folhas secas, que por sua vez rodeavam os ventos dançantes. 
Traziam de longe mágoas passadas, e como brisas apagavam histórias.
O vento sussurrou "ela não virá.", e então as gotas da chuva traduziram para mim.
Agora o céu chorava e eu não estava mais sozinho nessa. 
Não havia ninguém lá para ver, não havia ninguém em lugar nenhum. 
As ondas não falavam, as ruas não levavam, as pessoas não sentiam. 
Só os ventos podiam me acompanhar. A chuva, por sua vez, veio na hora certa me abraçar, as folhas me ajudaram a entender o que na verdade eu já sabia mas não queria reconhecer.
Ela se foi sem mim, e de presente me deixou a dor.


Fernanda  N. 

Conversas de calçada

17h03 - Saio de casa com a sensação de que estou esquecendo algo, ando preocupado e ansioso, checo todos os meus bolsos, parece estar tudo certo.

17h05 - Viro a esquina, tenho que atravessar uma rua, o sinal demora.

17h07 - Atravesso.

17h10 - Encontro-me com os amigos, é hora de partir para não sei onde. É feriado e ninguém tem o que fazer, caminhada é uma boa, vamos!

17h11 - Começamos a caminhar pela São Clemente, os carros são poucos e silenciosos, dá para conversar.

17h11 - Percebemos as imperfeições do chão de Botafogo e torcemos o pé a cada instante. O asfalto, também imperfeito, sobe na calçada como uma onda, (uma belíssima onda, por sinal, melhor que muitas por aí) parece até obra de arte, quem sabe não foi a intenção dos caras? Não, duvido muito.

17h12 - "Deus! Que calçada estreita!", pensam todos.

17h13 - 1 minuto se passa e continuamos com o mesmo pensamento: "Deus! Que calçada estreita!" Mas dessa vez a situação piora, temos que desviar dos postes que ocupam toda a calçada, ou melhor, todo o meio fio. É, somos todos equilibristas! Bêbados equilibristas? Não ainda.

17h16 - Mais 3 minutos e o assunto ainda é a calçad... quer dizer, meio fio! Torcemos o pé novamente, é difícil todos conversarem sem gritar, andamos em fila indiana, atentos com os buracos e imperfeições.  

17h29 - Finalmente o assunto da calçada acabou. Estava deixando-me entediado... enfim! Seguimos em frente, estamos no Humaitá, aceleramos o passo, a conversa flui naturalmente.

17h41 - Estamos indo para a Lagoa, conversamos sobre ''etiqueta'', mas aquele assunto da calçada volta a aparecer, inevitavelmente, obviamente.

18h02 - Sim, esse tempo todo o assunto foi a calçada. Infelizmente. Há tantas coisas boas para conversar mas a maldita calçada insiste em enfiar-se na conversa alheia, chata essa calçada! Parece gente! É muito menos interessante que os nossos assuntos, muito menos elegante. Seria elegante se não incomodasse, mas incomoda, logo é deselegante. Tenho uma certa pena de você, caro leitor, deve estar achando chato esse assunto de calçada, Por isso admiro-te, é generoso.

18h20 - Depois de uns passos pelo Lagoa paramos para beber alguma coisa, qualquer que seja. "Esses preços... não sou rico e tenho contas para pagar" Pensamos, todos juntos novamente. Parece que somos todos uma pessoa só, como Os Mutantes, mas chega desses pensamentos ruins, vamos lá! "Uma água, por favor" Sim, água, nada de cerveja agora, deixa para depois num lugar mais barato, com um preço menos salgado.

18h34 - O vento corre, sopra, refresca. Dia lindo, nublado e frio. É lindo, alguns não entendem e chamam-me de louco, mas acho lindo um dia nublado. Para alguns, um dia nublado é sinônimo de milagre e um dia ensolarado é um pesadelo, então posso gostar de dias nublados, não sou o único e penso nessas pessoas que sofrem na seca, triste.

19h34 - Depois de mais passos pela Lagoa, resolvemos voltar para Botafogo, alguns querem tomar aquela gelada, mas fico aflito pensando que teremos que passar por aquelas calçadas novamente e, certamente, falaremos sobre elas. Na verdade, já começamos a pensar sobre elas, malditas!

20h02 - Sim, todo esse tempo foi ''assuntos de calçada'', claro que tiveram outros comentários que não tinham a ver com essa maldita, mas foram poucos. Coisa chata! Deixa para lá. Paramos num barzinho, pedimos uma gelada e o papo passou a ser outro, música, política, praia, viagens, mulheres, qualquer coisa mais interessante do que aquela maldita.

21h56 - Todos vão para os seus cantos, cada um para um lado, todos para casa. Vou andando pelo Humaitá em direção a Botafogo e começo a pensar de novo naquela maldita, mas agora tenho pena. Foi tão humilhada, senti um aperto no coração, não é culpa dela, ela não quis ser assim, é culpa de quem a construiu, oras! Tadinha, é pisoteada todo santo dia, deve sofrer, ainda mais na hora do rush. Coitada. Dá-me pena. Estranho eu sentir essa tristeza, será o efeito do álcool? Descarto a possibilidade, bebi pouco. Mas... posso dizer que sou Bêbado Equilibrista?

22h07 - O telefone toca, atendo, é minha mulher pedindo para que eu compre água oxigenada e esparadrapo, pergunto o motivo e ela diz "Levei um tombo na calçada". Desligo e digo em voz alta "Maldita!"


Pedro Schiller

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

Parágrafo único

Um dia desses passei a observar os passos das pessoas na rua. Não sei porque diabos, mas aquilo me instigava. Cada qual com seus passos, uns dançantes, outros tímidos, outros atrapalhados... E o que todos estavam calçando era um sapato. Olhava ao redor e não entendia o porquê, mas todos aqueles sapatos induziam-me a segui-los. Talvez por pura curiosidade ou algum tipo de fascínio. Fui atrás, meio tonto, talvez pelo grande número de calçados ou pelo calor que fazia. Seguia, seguia, seguia até cansar de seguir. No entanto, um dos passos chamou-me mais atenção, eram passos doloridos, descalçados e sujos, parecia passos de um bicho mal tratado. Deu-me pena, fui fitar mais de perto, aproximei-me e vi a ferida viva de alguém que não tinha o que comer, onde morar. Não tinha o que calçar.


Pedro Schiller

Só mais um dia

Acordo, seis e meia da manha, ainda com os olhos meio fechados escovo os dentes, tomo banho. Estranho... Meu celular toca novamente, uma das minhas musicas preferidas mas agora eu a odeio; de qualquer maneira, ninguém acorda. Termino o banho, tomo meu café, uma banana e um suco de caixa, não tenho tempo para preparar nada.

Saio de casa com pressa, estou meio atrasado, encontro com um amigo que me acompanha sempre no caminho do colégio. Sua face expressa o sono absurdamente forte que ambos sentimos, não falamos nenhuma palavra até chegarmos ao colégio, cada um vai para sua sala, sou repetente.

Entro em minha sala, aqueles mesmos rostos cansados de sempre, as aulas passam desapercebidas por mim, os mesmos professores as mesmas aulas, o mesmo desanimo estampado em todos. Chega o intervalo, compro um sanduíche de atum e um suco de laranja muito aguado, termina o recreio, voltamos para a aula até. Espero chegar a hora da saída, não me importo muito, minha casa não é o lugar mais especial do mundo. Sou o último a sair da sala, reencontro meu amigo do lado de fora da escola.

Aquele dia tão vulgar foi diferenciado por um fato, um pequeno fato, uma menina, moradora de rua, ela me pede um trocado, tiro do bolso uma nota de dois reais e dou para ela, aquele criança me responde com um lindo sorriso, e naquele simples sorriso de criança eu noto que não dou o verdadeiro valor a minha vida.


Arthur Rangel

Pro inferno, revisão!

Antes de tudo, antes mesmo do início das exposições, antes da feira livre das reciclagens pensamentais, é importante que seja feita uma reivindicação: que não seja reprimida em este - atenção, revisão, pra primeira observação: é "em este" mesmo, não "neste" - recinto a adoração e a opção pelo ruim e pelo não-usual.

Explico.

Primeiramente, o bom não é propriamente educativo. O bom nos acostuma mal e nos isola em uma - atenção, revisão: "em uma" mesmo, não "numa" - redoma de veludo que nos impede de conhecer a vida como ela é. Já o ruim, não. O ruim elimina de primeira qualquer possibilidade de afeição inicial ou de expectativa posterior. Isso acaba por tornar qualquer fator que vem acompanhado do adjetivo "ruim" algo aceitável.

Daí vem minha adoração pelo ruim. Enquanto os acostumados com o que é indubitavelmente bom se sentem mal com qualquer coisinha, eu me deslumbro em vislumbrar qualquer cocô de cachorro que aparece no meus caminhos. Optando pelo ruim, qualquer descoberta já é uma maravilha.

O ser humano moderno vive numa - dessa vez, é "numa" mesmo. Acorda, revisão! - ditadura qualitativa, onde passa mais tempo julgando o que é melhor, o que é pior e menos tempo desfrutando o que deve ser desfrutado. Aí, nessa loucura epidêmica perfeccionista contemporânea, marginalizamos o que diz-se ruim, valorizamos o estar e esquecemos o ser.

Faço aqui, então, uma carta aberta pelos direitos dos esquecidos: ruins, uni-vos! Uni-vos contra o usual! Uni-vos contra os absurdos benignos, benéficos e benevolentes! Uni-vos contra os tirânicos arquitetos desta ditadura e uni-vos contra a hipocrisia da ordem e seus hipócritas agentes, os revisores!

Viva o palavrão, viva a merda, viva a falta de pontuação, viva o texto mau escrito, viva o mesmo mal lido.
Viva a inesistência dos erros de português. Viva o coloquialismo! Morte ao formal, morte ao careta!
Viva o atencionalismo. Viva o Google! Não precisamos de vocês, revisores anti-patrióticos! Não-brasileiros!

Pro inferno, revisão!


Rafael Balla

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

Muitos estigmas, pouca inovação

A maconha é alvo de debate em todo o mundo, o Brasil não possui uma posição quanto a este assunto, pelo menos não de seus políticos. Os dois principais pontos discutidos são a legalização ou descriminalização, partindo da ideia que são duas coisas diferentes, e se realmente a utilização em longo prazo da Cannabis é prejudicial a saúde ou não.

A legalização consiste em total liberdade de compra, venda e uso, a venda seria feita pelo estado, e supondo-se que seria vendida em farmácias e locais como os cafés na Holanda, uma das possibilidades seria reverter metade de toda a renda obtida para a verba da educação, e para o plano de criação de um projeto de conscientização dos malefícios de se utilizar drogas mais pesadas, como cocaína, heroína, crack e etc. A legalização total possivelmente seria um grande golpe no tráfico de entorpecentes, se baseando na ideia que grande parte do lucro do tráfico de drogas é ganho apenas com a venda de maconha, isto levaria a quebra de poder, e assim o dinheiro ganho ilegalmente pelos traficantes, seria revertido diretamente para educação.

A descriminalização se baseia em fazer com que o consumo da erva não seja considerado crime, o usuário seria apenas considerado doente, esta solução é considerada uma incompleta, pois não acabaria com o lucro do tráfico em cima da venda de marijuana. O consumidor ainda seria obrigado a ir a locais pouco confiáveis, onde a substancia não seria pura e possivelmente seu dinheiro seria revertido para compra de armas e etc.

Algumas pessoas acreditam que a legalização total não seria uma solução real partindo do pressuposto que os usuários não satisfeitos com a agora a erva sendo legalizada, buscariam algo mais forte, entorpecentes mais poderosos, e prejudiciais a saúde quase em sua totalidade, além da necessidade de sentir que está se  fazendo algo fora da lei, algo ilícito e possuindo isto em mentes, partiriam para esta tentativa de obter adrenalina em suas vidas.

A possibilidade de a maconha ser prejudicial a saúde ainda esta em estudo, mas segundo alguns estudos ela poderia agravar casos de pessoas com traços de esquizofrenia, pode  afetar a memória, e também o fato da fumaça afetar o pulmão, não tão agressivamente como o tabaco, mas podendo causar doenças pulmonares também.

Outros estudos mostram que a Cannabis aparece como possível modo de tratamento para doenças como insônia, depressão, participa no tratamento de câncer , AIDS (combate as náuseas e estimula o apetite), glaucoma (alivia a pressão ocular), epilepsia (evita as convulsões) e esclerose múltipla (diminui espasmos musculares).


Em mente todos estes fatores questiona-se o que deve ser feito pelo estado, o cigarro é um produto que tem a possibilidade letal absurdamente maior que a marijuana é legalizado sem nenhum tipo de problema, a não ser com o fato de afetar a saúde publica e sofrer sanções, que se pensadas de modo inteligente, são absolutamente necessárias e sensatas, não se fuma em lugares fechados, pois a fumaça se aglomeraria e poderia ser prejudicial a todos presentes no recinto, hoje as diversas leis apenas tornam o consumo de cigarro e bebida uma coisa mais segura, caso estas medidas fossem tomadas com a substancia  será possível que a maconha se torne uma solução, não mais um problema.


Arthur Rangel