17h03 - Saio
de casa com a sensação de que estou esquecendo algo, ando preocupado e ansioso,
checo todos os meus bolsos, parece estar tudo certo.
17h05 - Viro
a esquina, tenho que atravessar uma rua, o sinal demora.
17h07 -
Atravesso.
17h10 -
Encontro-me com os amigos, é hora de partir para não sei onde. É feriado e
ninguém tem o que fazer, caminhada é uma boa, vamos!
17h11 -
Começamos a caminhar pela São Clemente, os carros são poucos e silenciosos, dá
para conversar.
17h11 - Percebemos
as imperfeições do chão de Botafogo e torcemos o pé a cada instante. O asfalto,
também imperfeito, sobe na calçada como uma onda, (uma belíssima onda, por
sinal, melhor que muitas por aí) parece até obra de arte, quem sabe não foi a
intenção dos caras? Não, duvido muito.
17h12 -
"Deus! Que calçada estreita!", pensam todos.
17h13 - 1
minuto se passa e continuamos com o mesmo pensamento: "Deus! Que calçada
estreita!" Mas dessa vez a situação piora, temos que desviar dos postes
que ocupam toda a calçada, ou melhor, todo o meio fio. É, somos todos equilibristas!
Bêbados equilibristas? Não ainda.
17h16 - Mais
3 minutos e o assunto ainda é a calçad... quer dizer, meio fio! Torcemos o pé
novamente, é difícil todos conversarem sem gritar, andamos em fila indiana,
atentos com os buracos e imperfeições.
17h29 -
Finalmente o assunto da calçada acabou. Estava deixando-me entediado... enfim!
Seguimos em frente, estamos no Humaitá, aceleramos o passo, a conversa flui
naturalmente.
17h41 -
Estamos indo para a Lagoa, conversamos sobre ''etiqueta'', mas aquele assunto
da calçada volta a aparecer, inevitavelmente, obviamente.
18h02 - Sim,
esse tempo todo o assunto foi a calçada. Infelizmente. Há tantas coisas boas
para conversar mas a maldita calçada insiste em enfiar-se na conversa alheia,
chata essa calçada! Parece gente! É muito menos interessante que os nossos
assuntos, muito menos elegante. Seria elegante se não incomodasse, mas
incomoda, logo é deselegante. Tenho uma certa pena de você, caro leitor, deve
estar achando chato esse assunto de calçada, Por isso admiro-te, é generoso.
18h20 -
Depois de uns passos pelo Lagoa paramos para beber alguma coisa, qualquer que
seja. "Esses preços... não sou rico e tenho contas para pagar" Pensamos,
todos juntos novamente. Parece que somos todos uma pessoa só, como Os Mutantes,
mas chega desses pensamentos ruins, vamos lá! "Uma água, por favor"
Sim, água, nada de cerveja agora, deixa para depois num lugar mais barato, com
um preço menos salgado.
18h34 - O
vento corre, sopra, refresca. Dia lindo, nublado e frio. É lindo, alguns não entendem
e chamam-me de louco, mas acho lindo um dia nublado. Para alguns, um dia
nublado é sinônimo de milagre e um dia ensolarado é um pesadelo, então posso
gostar de dias nublados, não sou o único e penso nessas pessoas que sofrem na
seca, triste.
19h34 -
Depois de mais passos pela Lagoa, resolvemos voltar para Botafogo, alguns
querem tomar aquela gelada, mas fico aflito pensando que teremos que passar por
aquelas calçadas novamente e, certamente, falaremos sobre elas. Na verdade, já
começamos a pensar sobre elas, malditas!
20h02 - Sim,
todo esse tempo foi ''assuntos de calçada'', claro que tiveram outros comentários
que não tinham a ver com essa maldita, mas foram poucos. Coisa chata! Deixa
para lá. Paramos num barzinho, pedimos uma gelada e o papo passou a ser outro,
música, política, praia, viagens, mulheres, qualquer coisa mais interessante do
que aquela maldita.
21h56 - Todos
vão para os seus cantos, cada um para um lado, todos para casa. Vou andando
pelo Humaitá em direção a Botafogo e começo a pensar de novo naquela maldita,
mas agora tenho pena. Foi tão humilhada, senti um aperto no coração, não é culpa
dela, ela não quis ser assim, é culpa de quem a construiu, oras! Tadinha, é
pisoteada todo santo dia, deve sofrer, ainda mais na hora do rush. Coitada. Dá-me pena. Estranho eu sentir essa tristeza, será o efeito do álcool?
Descarto a possibilidade, bebi pouco. Mas... posso dizer que sou Bêbado Equilibrista?
22h07 - O
telefone toca, atendo, é minha mulher pedindo para que eu compre água oxigenada
e esparadrapo, pergunto o motivo e ela diz "Levei um tombo na
calçada". Desligo e digo em voz alta "Maldita!"
Pedro Schiller