domingo, 27 de julho de 2014

O sorriso de Deus

De repente olho pro céu e vejo a lua sorridente. ‘’Parece mágica, parece mágica’’, “É o sorriso de Deus”, dizia quando tinha 4 anos. Era engraçado, eu não entendia como o mundo funcionava, fico imaginando se, por algum instante, eu pudesse viver em um mundo em que tudo é mágica. Nascer há alguns milênios e acreditar em vários Deuses, faria da vida uma fantasia.

Fica sem graça, perde a beleza quando descaramos os segredos da natureza. Tudo tem uma explicação feia e complexa que tira a beleza de acreditar num mundo místico. Quando descobri que a Lua não era o sorriso de Deus fiquei profundamente desiludida, imagina a poesia sem uma metáfora? Não é poesia.

Outro dia um senhor veio até mim e perguntou se eu já tinha deixado de acreditar em Deus. Eu disse que não tinha certeza. É muita prepotência dizer que não acredito, portanto falei que não sabia, o que é verdade. Ele me olhou, sorriu e falou que eu provavelmente estava no caminho certo e que logo mais acharia a resposta. Não me contive e perguntei se ele acreditava em um ser divino e o sujeito me respondeu rindo de si mesmo, com uma feição de inocência:

“Infelizmente, não. As coisas que vivi me fizeram deixar de acreditar e acabar com parte da minha infância e adolescência. Fico pensando se eu pudesse retornar e recuperar o tempo perdido nas missas. Certamente eu não teria o sentimento de tempo perdido. Quem sabe? Eu poderia ter utilizado esse tempo para aprender um instrumento. Agora, com a minha velhice, fico querendo voltar ao passado. Ou até mesmo voltar a acreditar em Deus. Aí eu não teria esse pensamento em relação à missa e ficaria mais sossegado.”

Achei engraçada a estória, fiquei curiosa com o velhinho. Interroguei-o novamente. “O que fez o senhor mudar de ideia e deixar de crer em Deus?” Novamente rindo de si mesmo ele rebate:

“Ah, eu fui me meter em fazer física. Só durante a faculdade já descartei várias crenças que havia em minha cabeça. Cheguei a trabalhar em Angra dos Reis no início da década de 70, eu era físico nuclear. Fiz amizades lá, conheci o “Mick”, um Inglês maluco amigo dos Mutantes que tomava ácido todo dia, até antes de ir para o trabalho. Era divertido, ele falava em Deus, que conversava com ele, que o via, que nós éramos seres divinos etc. Eu ficava brincando, falando que iria morrer e apertar a mão de Deus. Foi nesse momento da minha vida que comecei a me perguntar, de forma mais séria, coisas sobre a vida, sobre Deus. Comecei a descrer e descrer. Não foi de um dia para o outro, foi uma transição. É estranho dizer, minha querida, mas sei que não crer mais em Deus deixa a vida mais careta.”

Interessei-me pela estória, queria saber mais, porém achei que não seria muito educado fazer mais perguntas. Despedimos-nos e fui para casa observar o sorriso de Deus que, naquele dia, estava encoberto por nuvens. Ele deve ter ficado triste com a nossa descrença e por isso se reservou. Fiquei lá, olhando para cima, tentando achar seu sorriso. Não vi. Talvez eu tenha perdido a crença. Mudei minha posição e olhei para baixo, mirei um bar há uns 100 metros de minha janela, comecei a entender o motivo das pessoas encherem a cara. Talvez elas queiram perder a caretice e recuperar a inocência, viver como criança e acreditar em magia. Não resisti, desci e fui ao bar bater um papo com os caras, estavam todos felizes e alegres, rindo à toa, jogando conversa pro alto e assistindo os carros passarem. Pedi uma cerveja e tomei um copo. No segundo, um homem barbudo pediu para me acompanhar, aceitei, queria conhecê-lo, será que ele acreditava em Deus? Conversamos sobre tudo que se possa imaginar. Música, livros, universo, política, dissertamos sobre a sociedade... Papo maravilhoso e cheio de ternura! De repente, o homem levanta, deixa 20 reais na mesa e diz que precisava ir. Num momento de desespero perguntei curiosa e aflita. “Você acredita em Deus?”, ele para, se vira, olha fixamente em direção à mesa e diz:

“Há muito Deus pra pouco amor... mas como? Deus é amor. Ele está morrendo... Precisamos salvá-lo, ame um pouco mais e estará fazendo um bem à humanidade."

O homem se vira e vai embora na calada da noite escura. Eu, atordoada, fico lá. Sentada. Esperando respostas. Fico atônita com a resposta do cara que havia conhecido e me toco que eu não tinha perguntado o seu nome. Será Deus?

Volto para casa, ligo o rádio, deito na cama, troco de roupa, descanso meus pés e a música ecoa sobre meu quarto fechado e impregnado de flores. Num instante, a música diz:

“Será que baby sou eu?/Será que baby é você?/Será que baby é Deus?”

“A parti de hoje, nunca mais penso em Deus”, sussurrei para mim. Ou era uma resposta dele para mim, me sacaneando, ou estava ficando louca e obcecada pelo assunto. A música terminou e o rádio parou. Nesse momento me virei e olhei pela janela. Estava claro! ERA O SORRISO DE DEUS!



Pedro Schiller

Nenhum comentário:

Postar um comentário