(Não quero escrever bonito. Abusarei dos parênteses. Contente-se com isso. Aliás, o bonito é relativo, portanto estou errado ao dizer que não quero escrever bonito. O ideal seria dizer que não quero escrever de modo formal. É isso. Não tenho compromisso com a formalidade hoje - até porque esta foi convencionada e detesto convenções. Pois bem, até comecei o texto com parênteses para você ir se acostumando. Viu? eu penso em você com carinho, acredite.)
Desde pequeno nunca entendi certos dogmas da vida. Questionava-me calado e tentava elaborar um raciocínio que pudesse clarear minha mente. Falhei na maioria das vezes, o que poderia deixar-me imensamente frustrado, mas via que tudo não passava de uma convenção. A lógica nem sempre era o foco principal.
Desde pequeno nunca entendi certos dogmas da vida. Questionava-me calado e tentava elaborar um raciocínio que pudesse clarear minha mente. Falhei na maioria das vezes, o que poderia deixar-me imensamente frustrado, mas via que tudo não passava de uma convenção. A lógica nem sempre era o foco principal.
Toda vez que eu tentava entender o porquê de certo termo,
acabava aceitando a condição de que minha conclusão estaria errada, mesmo sem
saber o motivo pelo qual se usava tal termo. Comecei, então, a elaborar
medidas, dentro de minha caixola, para que eu pudesse refletir sobre o assunto
sem sofrer qualquer tipo de influência externa. Com isso, delirava com meus
parafusos a fim de achar a resposta mais coesa. Ao final do processo, quando finalmente
descobria a resposta, torcia para que não estivesse de acordo com o que eu
havia imaginado. Ficava feliz, pois em minha cabeça (quero frisar isso) eu estava num mundo em que
não podiam me tirar jamais. Quando somos crianças temos esses delírios, coisa
rara na vida adulta. Pois bem, quero mostrar alguns exemplos...
Veja o exemplo I:
Um grupo de 3 pessoas está sentado em uma mesa de bar. O garçom diz para o outro "Eles pediram a conta..." e depois aponta para uma mesa com duas moças e continua "...essas aqui acabaram de chegar, dê o cardápio para elas". Tudo bem. Vemos, aqui, que, diferentemente da língua inglesa, temos pronomes distintos para designar homens e mulheres no plural. Perfeito. Pelo menos nem todo imperialismo deles está presente na nossa cultura. Partamos ao próximo exemplo!
Exemplo II:
Um homem sentado em uma mesa juntamente com três mulheres. O
garçom do restaurante olha a situação e diz “Aqueles ali acabaram de chegar’’.
Nota? ‘’Aqueles’’.
Exemplo III:
A mesma situação. Uma mulher mira a mesa e diz: ‘’Eles vão
demorar muito?’’ Perceba: ‘’Eles’’.
Conclusão:
Minha mente, ainda em desenvolvimento no primeiro momento,
poderia propor que: o fato de o garçom ter utilizado um pronome demonstrativo
masculino para designar as três mulheres e o homem (exemplo II) deu-se devido ao sexo do
locutor, masculino. Sim, é esquisito, mas não vejo outra explicação, pois descarto logo de início a ideia de maioria, já que
temos 3 indivíduos do sexo feminino e apenas um do masculino. Porém, (Note a
linha torta ao decorrer da lógica) no exemplo III, quando o locutor é
feminino, a frase foi construída com a mesma linha de raciocínio do exemplo anterior (se é que se
pode chamar tal fato de raciocínio). ‘’Eles’’ remete ao
mesmo grupo, e eu, em minha situação de criança, via o caos que poderia ser a
vida seguida na mesma linha de raciocínio em que as frases foram construídas.
Logo mais tarde percebi que, de fato, o mundo todo seguia este tipo de
raciocínio. Daí comecei a entender o porquê de todo o caos. Vamos ao segundo caso...
Dentre meus devaneios quando criança,
um dos que mais me incomodava era aquele de que Homem é sinônimo de Humanidade,
ou de Ser Humano, ou de Homo Sapiens. Aliás, até aceitaria o termo ‘’Homem’’
(no sentido morfológico) ser sinônimo disso tudo, contanto que ‘’Homem’’, na
forma mais simples de substantivo, referisse-se ao ser feminino (Gosto de uma inversão: Mulier Sapiens). Essa minha
teimosa inquietação não se conformava com a loucura do ‘’mundo civilizado’’. Para
mim, era tudo antilógico (no sentido de ser contra a lógica e não ‘’ilógico’’,
quando não se tem lógica) e outorgado. “Os ‘homens’ são loucos e não queria
fazer parte disso!’’ E ainda tem aquela história de que Eva
veio da costela de Adão. E que Adão foi formado a partir da imagem de Deus etc,
etc. Ora, até você, Deus? Até Deus sofreu tal subordinação? Talvez Nietzsche estivesse certo, Deus não suportara tanta imposição e morrera de tristeza.
Simbolizar o gênero Homo
com a palavra ‘’Homem’’ é um crime contra o tal ‘’Homem’’, ou, mais
generosamente, Humanidade. A mulher tem um papel muito mais importante na
história, pois é ela quem dá a luz, quem carrega o futuro por cerca de 9 meses,
quem amamenta, quem tem o primeiro contato com a nova vida. A mulher é a
procriadora e possibilita a existência de nossa espécie. Mulheres são maioria
no mundo, mas desde que o Homem (até eu sou contaminado por esta praga) passa a
ocupar mais espaço no globo terrestre, a imagem do ser masculino como
representante da humanidade passa a ser cada vez mais forte. Hoje, até acho
válido associar a imagem do Homem, ser masculino, com a imagem da humanidade
decadente. Mas, jamais, atrelaria a imagem da Mulher com os males dessa tal
civilizada espécie ‘’Homo Sapiens’’, pois, até hoje, o espaço que a mulher teve
no espaço das relações políticas foi irrisório e, portanto, não podemos, em
hipótese alguma, associar os defeitos crônicos de nosso mundo contemporâneo à
imagem do ser feminino. É um crime à mulher, um crime à palavra.
Pedro Schiller
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