Tinha medo das poucas coisas que lhe apareciam. Qualquer oportunidade, qualquer fórmula de prazer... Tinha medo de seus amigos colocarem-no em situações difíceis e constrangedoras. Isso não acontecia. Contudo, havia o medo em relação a isso. Imaginava respostas para perguntas pouco prováveis, inventava metáforas românticas para dizer por aí. Não as dizia.
A solitude atraía-o e o silêncio e a calmaria do nada faziam-no pensar sobre mais coisas improváveis. Que tal mundo era esse?
Sua deusa era uma amiga de infância, por quem apaixonara-se. Pensava nela todos os dias e todas as noites, dava bom dia e boa noite, mesmo sem ela escutar, sem saber, sem imaginar, sem crer.
Dificilmente pensava nisso como um problema, pois quando pensava, dizia que era perda de tempo. Entretanto, sua cegueira amorosa incumbia seus pensamentos lógicos.
Pensava, muito raramente, em estar ficando louco, mas não acreditava nessa ideia, já que sua vida era completamente lúcida e bem administrada. Tirava boas notas no colégio, passou para a faculdade sem muitas dificuldades, vivia bem, com saúde, com um bom emprego e conforto.
Certo dia, sonhara com sua paixonite e acordara assustado. Assim como todas as outras vezes... só que desta vez foi muito diferente. Não conseguia entender o que fazia-o tão desesperado em plena lucidez mental. Suas ideias começaram a embrulhar-se de forma que seus raciocínios não soassem lógicos, suas atitudes e movimentos eram pitorescamente vagarosos e seu senso de direção, apesar de não ser muito bom, não existia mais. Não sabia onde era o teto, o chão e as paredes. Para ele, tudo agora era um universo em expansão, parecia flutuar sobre os quadros belíssimos de sua casa, sentia-se estranhamente bem.
Ouvia vozes silenciosas, calmas e mansas. Não sabia o que era real, perdeu a noção de profundidade, não sabia em que plano estava, desapegou de todo o seu ego, todos os seus medos e segredos.
Não sabia, não falava, não ouvia, não escutava, não sentia, não imaginava. Não existia.
Pedro Schiller
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