segunda-feira, 25 de maio de 2015

Despedida ou Força Bruta

Ela veio sem vir, e isso me deixou atordoado. Barulho sempre me preencheu, som alto nunca me atrapalhou. Eu sabia que era ela. Ela emanava uma luz, ela tem aquela coisa de sentir e mostrar o que sente. Quando eu percebi isso, eu vi que era a verdade que me gerava magnetismo, eu parecia uma mosca na luz. Ela passava verdade, era tudo de verdade, todas as reações, todos os sorrisos, o olho brilhando. Aquela coisa de desconhecer perfeição ou imperfeição; de tratar as pessoas de maneira igual independente de suas atitudes, de suas posições, de suas existências. Isso é coisa de gente muito sincera e muito pura. Que eu nunca tinha visto até ali.

Eu não tinha ideia do que tinha acontecido, mas eu tremia igual criança quando eu descobri que nós estávamos no mesmo grupo de repente. Olhei em volta e as amigas daquela menina eram amigas dos meus amigos. Olhei para o lado e aquela menina estava ali, olhando pra mim. Eu não sei o que acontecia. Isso era coisa de pouco tempo, eu me perdia no olhar das pessoas e não conseguia cumprir minha parcela de auto-observação necessária para gerar e alimentar uma conversa. Eu simplesmente não conseguia refletir o bastante para falar alguma coisa que fizesse sentido. Daí, eu não falava nada. Ela percebeu isso. Percebeu e não reagiu de nenhuma forma. Não se sentiu atraída por isso, não se sentiu incomodada por isso, não se sentiu pressionada, não se sentiu decepcionada, não perdeu qualquer tipo de atração por mim, nem intensificou qualquer tipo de atração por mim. O que ela era, ela continuou sendo, sem se aprofundar em interpretações do que vivia. Eu sempre interpretando tudo, sempre engessado de culpa, engessado de medo de me omitir - e me omitindo sempre sem perceber -, e aquela menina ali, conseguindo cumprir aquele ato tão nobre e complexo de viver e apenas viver sem pensar em nada.

Homem, mulher, amiga, desconhecido, todos iguais perante ela. E eu ali, sem saber o que fazer. Tomei um gole de cachaça para criar coragem. Não soltei uma frase. Escutei uma pergunta. Esperei resposta, ninguém deu. Ajeitei o foco dos olhos e olhei em volta, todos olhando em minha direção. Um pesadelo frequente pra uma pessoa com fobia de atenção. A pergunta era pra mim. Respondi sem jeito e sem saber para quem. Olhei pra frente e vi um mar de desconhecidos. Procurei desesperadamente os olhos de alguém que eu conhecesse; e foi olhando para esses olhos que eu respondi aereamente tentando pescar quem havia me perguntado. Era a amiga dela.

A amiga dela exalou aquele cheiro de leve desapontamento que eu sempre sinto. Tenho uma aura comunicativa forte. Mas não sou uma pessoa comunicativa na raiz. Nem um pouco. Calado, eu sou a pessoa que eu deveria ser. Falando eu sou a pessoa que eu sou. E isso conta muito quando eu gaguejo em pensamento na frente de alguém que suga meus olhos e meus sentidos como aquela menina ao meu lado. Mas era ela quem importava naquela situação. E ela não tinha tido nenhuma reação. Não que não fosse expressiva, era a mulher mais expressiva que eu já tinha visto na minha vida. Ela só não via nada demais, relevava todo tipo de julgamento, não se ligava muito na ideia de perceber problemas nas coisas, coisa que eu não conseguia nem tentando muito. Eu via que ela era muito melhor do que eu. E isso me atraía, me amedrontava e me doía.
Eu ficava encurvado do lado dela. De vergonha dela não saber, de não estar expresso a minha indignidade em receber sua atenção, em ser ouvido por ela. Eu não merecia conversar com ela. O lugar dela era um palácio, um reinado; o meu era a minha cama, o meu travesseiro, pra dormir pelo menos uma noite inteira e acordar outro dia para tentar ser melhor na vida. Mas ela não pensava nisso. Ela ria, se divertia. E isso me maltratava mais ainda.

O tempo passou e eu fui ofuscado por aquela luz própria, brilhante que ela emanava. Ela saiu sem que tivéssemos trocado uma palavra. Eu percebi meu papel de sombra ali, percebi que ninguém considerava mais me olhar naquela roda, que minha participação ali era nula e inútil. Mas ela continuava cruzando olhares comigo, como continuava cruzando olhares com todos. Ela saiu e voltou logo. Depois outros saíram e ficamos nós dois. Só nós dois.

No meu cérebro, inúmeras possibilidades, inúmeras tentativas, inúmeros sucessos. Enquanto eu olhava para aqueles olhos castanhos me sugando os olhos e as palavras. Eu pensava muito e não falava nada. Ela olhava em volta sem esperar muito. Depois começou a puxar assunto olhando para mim de baixo pra cima. Ela dizia as coisas, formulava as perguntas mexendo os olhos, olhando a festa, olhando para o alto, revirando os olhinhos. Depois passava a palavra para mim com olhar profundo, inquisidor, de baixo pra cima, que me deixava louco. Eu não queria falar nada, não queria responder. Eu queria fotografar aquele olhar, aquele rosto daquela forma e deixar de plano de fundo da minha vida. Eu só queria parar o tempo ali e não ter obrigação nenhuma de ser alguém.

Mas eu tinha muita obrigação de ser alguém ali. E eu precisava interagir para não perder mais chances de guardar aquele olhar em mim. Comecei a responder as perguntas que ela me fazia. Não me alongava porque era incapaz de me alongar. Mas rebatia a pergunta sempre. E isso fazia com que ela começasse a falar, não parasse de falar, se divertisse falando. Rindo, rindo lindamente, rindo muito, me fazendo rir também. Eu ria, ela ria, o motivo todo era ela, eu via que o motivo era ela e ela não via motivo algum além da história que ela revivia ao me contar. Eu era tão feliz ali do lado dela.

Chegaram as outras pessoas. Ela começou a me notar mais. Eu continuei quieto. Mas percebi que ela por algum motivo qualquer me via como referência, me olhava a cada vez que um questionamento era feito ou uma ideia era jogada na roda. Os outros saíram novamente. Ela riu e me chamou para dançar.

Eu não dançava. Contei. Ela não ligava. Me puxou, vestido amarelo, mãos macias, pequenas, rindo, feliz, pura, melhor do que eu. O som alto, rude, era ali mero detalhe. Eu só via ela, só ouvia ela. Ela fechava os olhos, não tinha interesse em mim, tinha interesse na música, no momento. Nada do que ela queria eu poderia oferecer. Mas por algum motivo, ela chegou perto de mim e me abraçou. Eu, em minha odisseia dentro de mim mesmo, depois de muito debate, resolvi não agir. Ela me deu um beijo no rosto. Eu tremi como criança. Ela me beijou. Eu não fiz nada. Ela me olhou. Eu ali, face a face com ela, o motivo da minha existência nos últimos minutos da minha vida antes dela; o motivo da minha vida nos primeiros minutos de existência depois. Olhos com olhos, nariz com nariz, boca com boca, respirando do mesmo ar, compartilhando das mesmas interrogações e das mesmas exclamações. Eu senti pela primeira vez em muito tempo. Aquela intensidade de ser, de trocar, de inspirar sem medo. Sem racionalizar ou problematizar. Ela era perfeita, e em sua perfeição ela era a minha lição, a fonte dos meus ensinamentos, o motivo e o condutor da minha evolução. Com ela, eu aprenderia que perfeição e imperfeição não existem. Que o bom e o ruim são distorções de realidade. Que estampas são só estampas, que a verdade é o olho no olho, é a vida como ela é.

Quando ela veio sem vir, brilhando no horizonte do meu mundo infantil de alma velha, eu percebi que era algo diferente, que eu não sabia até então se existia ou se existiria. Eu tinha medo do amor porque eu tinha medo do desconhecido. E o desconhecido, meu amor, eu conheci com você. Durante a vida toda. Até hoje. Para sempre. Para além da vida.


Rafael Balla

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